25.11.07
Chennai 40 graus.
25/Nov/07
Parece que foi so falar e a segunda-feira comecou com chuva. Eu nao sei se eh so aqui em Chennai, ou de repente eh uma peculiaridade da India, mas nao existe boeiros, entao qualquer meia hora de chuva ja motivo pra encher as ruas e calcadas de agua. Como se fosse enchente em Floripa depois de uma semana de chuvarada. Entao me preparei pro trabalho e minha sorte foi ter trazido uma bota impermeavel - presente do meu pai - que eu trouxe mais pensando em usar caso eu fosse visitar o Himalaya do que aqui em Chennai, onde a temperatura media fica em torno dos 25 graus... Antes de seguir o caminho precisava confirmar o onibus, liguei pro meu colega de trabalho e pra minha surpresa ele me disse que devido a chuva nao iriamos trabalhar... Mas que era pra ficar no aguardo que a qualquer momento ele ia ligar - e ligou de tarde.
Trabalhar na rua tem varias vantagens. Eu nao sei se ja contei e tambem nao vou procurar nos posts anteriores, mas vou descrever um pouco como eh trabalhar no Greenpeace buscando socios:
Primeiro ha um treinamento que eu ja citei anteriormente, apos isso voce teoricamente esta pronto pra ir pra rua abordar pessoas e convence-las de que eh uma boa causa. Afinal ninguem quer financiar uma ONG mensalmente, descontando do cartao de credito ou debito em conta sem saber pra onde o dinheiro ta indo. Mas o que eu quero contar eh a estrategia do negocio. E pra isso ha uma pessoa exclusiva no escritorio pensando em quais lugares, qual epoca e qual horario sao os melhores pra conseguir ter a melhor prospeccao e consequentemente o maior numero de candidatos a socios.
Entao o foco sao pessoas educadas, no sentido literal ate faz sentido, mas eu prefito dizer pessoas conscientes. Porem de nada adianta ser consciente e nao ter dinheiro, pois por mais interessado que seja a pessoa no assunto, nos estamos buscando fundraisers e nao apenas criando conhecimento, portanto o alvo final sao pessoas com alto poder aquisitivo e conscientes ou educadas, facilmente encontradas nas portas de grandes livrarias, shoppings centers, bancos privados e logico, grandes empresas.
Quanto as empresas ha um esquema chamado "permissao" no qual o Territory Manager liga com antecedencia, marca uma reuniao, combina o dia e a turma do aprouch entra na companhia e monta o cerco na hora do almoco, pois assim como no Brasil, as grandes empresas aqui possuem refeitorios, e eh nessa hora que o bixo pega. Quando estamos em " permissao" o negocio tem que ser mais direto, rapido. Nao ha enrolacao, pois o candidado a socio tem livre arbitrio pra apoiar ou nao, depende dele. Pois com certeza ele ganha bem e se esta em uma grande empresa deve possuir conhecimento sobre os problemas que o meio ambiente sofre. Falo isso principalmente pelo tempo concedido nas permissoes, geralmente 2 a 3 horas. Enquanto na rua a prospeccao tem que ser feita e as vezes voce perde 20 minutos falando e quando voce cita o apoio financeiro o cara sai correndo...
Outro dia foi engracado. Abordei um cara, ele aparentava ter o perfil, tava numa moto nova e comecei a explicar e ele so respondia: ok, ok, ok... Depois de uns 5 minutos explicando um tema chegou um colega pra dar uma forca. Foi soh meu colega abrir a boca pra falar um negocio o candidato a socio falou: " Eu nao entendo ingles".. porrrr*%#.
Uma coisa que eu queria falar semana passada mas achava que nao era a hora. Ainda continua cedo tambem, mas como ja estou ha um mes aqui acho que ja da pra falar... me sinto em casa!
A adaptacao foi e esta sendo tranquilassa... sinceramente nao tive nenhum problema de saude, problema intestinal, estomacal, respiratorio, dor de cabeca... qualquer coisa, nada! Soh no primeiro e segundo dia que tomei um estomazil depois das jantas pra desencargo de consciencia. Espero continuar nesse ritmo, mas tambem tenho certeza que se der alguma zebra no caminho tenho uma mini-farmacia especialmente preparada pela Terezinha (quem conhece sabe, entao pode imaginar o tamanho da maleta de remedio.., brincadeira) me esperando!
Eu falo isso porque como passo a maior parte do tempo na rua e a cidade eh grande, nao existe o termo: "vou almocar em casa e ja volto" ate pelo preco que se paga nos restaurantes nao vale fazer em casa. Tenho comido em cada quebrada que a turma nao imagina. Apesar de tudo ha higiene sim, nao sou louco, mas eu digo quebrada porque eh quebrada mesmo. Mas aqui na India as aparencias enganam... Enquanto voce esta sentado numa dessas "quebradas", chega tiosinho de camisa e gravata com laptop na pasta e come junto... Ta certo que perdi dois kgs nas primeiras duas semanas, mas isso faz parte daquela historia de adaptacao...
Parece que foi de um dia pro outro (ou de repente quando a calca ficou mais frouxa) que eu comecei a gostar da comida indiana. De duas semanas pra ca tenho comido varias coisas diferentes e ao contrario do que todo mundo pensa, nem tudo tem pimenta. Pelo contrario, varias coisas doces.
A India ta surpreendendo. Antes de chegar aqui eu imaginava que ia ficar um tempao sem comer carne vermelha... engano. Ontem, sabado a noite a turma do Greenpeace resolveu fazer uma festa. Comida, bebida, musica e os mais nativos (podem me incluir fora dessa) dancando.
Em um mes aqui eu ja vi coisa diferente, estranha, absurda, mas nada igual ao acougue indiano. As vezes na vida a gente consegue fingir situacoes que nao estao boas dizendo " ok, esta tudo bem", mas tenho certeza que quando eu entrei no acougue minha cara disse tudo: " De hoje eu nao passo".
Chegamos no acougue perto do local da festa e eu ja notei a natividade pelas gaiolas com as galinhas vivas na frente. Vivas ate o momento que meu camarada fez o pedido. Um minuto depois duas delas estavam mortas... mas isso nao eh nada. Por que isso eu considero normal, minha avo faz isso! O que eu achei sinistragem foi o pedaco de boi pendurado num arame. Aquilo sim me fez perguntar: ou vai ou vastra... lembrei das palavras do meu amigo chines quando estavamos um dia na praia e ele pediu peixe frito, eu falei que ele era louco, ele respondeu: "Se voce nao experimentar a India, voce nunca vai conhece-la..." Eu tava la sentado, curtindo a situacao, a galera do Greenpeace fazendo a negociacao de quantos kgs de carne, galinha... aquela historia de quantas pessoas comem... quando eu olho denovo pro pedaco de carne e sem acreditar eu percebo que o rabo do bixo tava la arrastando no chao. Obvio que eu nao vastrei, afinal a turma nao ia me botar em roubada. E soh pra terminar... foi altas janta! Carne macia, frango com alho e cebola, arroz, cerveja gelada, refrigerante... musica... po, isso lembra minha casa!