20/Fev/2008
Na madrugada de quarta sai e Hampi rumo a Goa. Um dia antes tinha ido na Estacao comprar o bilheta pra viajar no dia seguinte. Pedi pra Vasco da Gama, Goa. A mulher do caixa disse que nao tinha. Tive que mudar o plano na hora, nao queria mais ficar em Hampi e tinha que decidir um novo destino a caminho de Goa.

Hampi na verdade ficou mais pra uma parada que uma estada... Os templos centenarios de pedra ate deu pra bater umas fotos e ver tudo em um dia so. Dormi quebrado depois da caminhada e acordei no outro dia cedo com o relogio uma hora adiantada. Meu ticket era pras 7:45, no relogio eram 6:30 (na verdade 5:30) entao resolvi sair da pousada, pegar o onibus ate a estacao, matar uma meia hora e partir. Porem, cheguei na Estacao e logo notei um movimento anormal. Era mais turista que indiano. Achei anormal pois o destino que eu tinha comprado o ticket nao era tao conhecido assim e alem do mais comecei a ver no telao escrito que o trem para Vasco da Gama estava a caminho. Nesse meio tempo ja tinha arrumado o relogio e mudado de plano denovo, e o destino passou a ser Vasco da Gama denovo...
Foram umas 9 horas de trem a caminho de Goa que passaram muito rapido. Dormi metade do caminho e a outra metade fiquei de cara vendo a paisagem por onde o trem passava entre floresta tropical e as vilas ao longo do trilho. Foi so chegar em Goa e o cobrador passou coletando os tickets. O meu que era so ate a metade do caminho nao valia nada. De cara ele pediu 300, perguntei 200 e ficou por isso. Assinei um recibo e segui viagem. No balanco perdi 100 rupias mas economizei muito mais tempo chegando mais cedo em Goa. Passei pela capital, Panjim que segundo a lenda ha pessoas que ainda falam portugues. Eu que nao tava la pra muita conversa, peguei o primeiro onibus pra Baga Beach.

La pelos anos 60 Baga era uma colonia de pescador de colonizacao portuguesa que foi invadida pelos hippies europeus. E aquela epoca provavelmente deveria ter sido mais legal do que eh hoje. Por causa das raves e do consumo de drogas escancarado nas ruas e praias, os anos 90 foram os ultimos de gloria de um estado, e nao uma ilha como por alguns eh conhecida. Atualmente o som eh permitido ate as 10 da noite. As raves com bem menos frequencias ainda rolam no meio do mato e a turma enloquecida ainda pode ser encontrada na praia curtindo o fim de tarde. Assim com menos barulho, a turistada da terceira idade eh o novo foco do turismo. Pra aposentado europeu eh o melhor lugar do mundo. Primeiro porque o lugar ainda eh irado, eh barato em relacao ao euro e tambem nao eh muito longe. Depois de tres dias peguei o onibus no domingo pra outra praia do norte: Arambol.
Aqui sim os hippies vieram, uns ate ficaram e outros ainda continuam vindo. Encontrei uma boa parte de estrangeiros que tavam morando por um tempo e trabalhando soh pra sobreviverem. E durante o periodo de monsoes eles vao pra outro lugar... Mas durante a alta temporada o negocio eh legal. Tirando o incoveniente dos taxistas que mesmo vendo o cara de bermuda e sem camisa indo pra praia nao perdem a oportunidade de oferecer seus servicos. Se em Chennai os rickshaws eram chatos, os taxistas de Goa vencem facil.
Nao era a estacao certa e eu tambem nem tava esperando que fosse acontecer. Mas rolou o surf, finalmente. O unico restaurante que alugava pranchas soh tinha duas. Conferi a mare seca e me joguei pra uma hora de surf sem crowd, ou melhor, com um outro cara que tava aprendendo... Deu pra lembrar como se fica em pe na prancha e jogar o pranchao borda de caiaque pra cima da espuma... Fui pra Arambol pensando em ficar dois dias, no maximo. Mas nao consegui sair ate o sexto dia. De frente pra praia eu ficava pensando no longo caminho que eu tinha pela frente ate ir pro norte da India, pensava tanto que o dia passava voando mas uma hora eu tinha que ir embora.
Pra ir embora foi um parto. Explico. No dia que eu cheguei coloquei o passaporte e a maquina fotografica no "safe" que na real eh o cofre, ou armario ou onde quer que seja. Entreguei minhas coisas pro dono da pousada que era um politico aposentado da regiao. Cansado da correria fez da casa uma pousada e restaurante. E ele falava portugues. Assim, no dia que tava pra partir avisei ele que ia pegar as coisas apos o almoco pra pegar o onibus ate a estacao de trem e me mandar pra Bombay, conforme o planejado. Enquanto empacotava tudo uma excursao de japoneses foi chegando. Cada um tinha um instrumento musical na mao que se resumiam a percursao, corda e sopro. Eu nao tinha pressa mas tambem nao podia ficar me amarrando pra sair. Fui almocar e logo depois buscar as minhas coisas no "safe"... Tive duas surpresas, a primeira foi que os donos tinham ido pra outra cidade fazer compras e soh voltariam no final da tarde, quando meu trem partiria... e a segunda surpresa foi saber que o "safe" era realmente seguro... Pois ninguem, nenhum funcionario da pousada sabia aonde o negocio ficava. Nem a mae do politico que era uma senhora de idade sabia me dizer aonde minha sacola tava.
Eu tinha umas 4 horas ate o trem, mas tinha me programado pra ir de onibus ate a estacao o que ia me custar umas duas horas... Porem nao tinha como me mexer. Passaporte trancado na casa do cara era impossivel sair de la. O maximo que ia acontecer era cancelar meu ticket, pegar uma porcentagem de reembolso e dormir por conta do chefia mais uma noite na pousada dele.
A japonesada ja tinha se instalado e comecaram a fazer um som. Em seguida chegou um rasta com uma outra viola e a jam session estava apenas comecando. Nao tinha outra opcao a nao ser ficar curtindo e esperando o tempo passar pra pegar minhas coisas e tentar alcancar o trem a tempo. Foi ai que (depois de 2horas) os proprietarios chegaram e me entregaram tudo. Acertei a conta e perguntei quanto seria mais ou menos um moto-taxi de Arambol ate a estacao de trem. Se nao fosse de moto ate la provavelmente iria perder o trem... O proprio dono se ofereceu pra me levar na mobileti dele. Ele ja tinha me pedido desculpa pelo seu atraso pra entregar o meu passaporte que achei que a carona ia ser uma forma de retribuir.
No fim das contas cheguei 1 hora antes do trem partir. O cara teve a cara de pau de cobrar 100 rupias. Se nao fosse o arrego que tinha sido os ultimos 6 dias pagando apenas 40 rupias (ou 2 reais) por um dormitorio eu nao teria pago. Alem do mais o caminho que ele tinha pego ate chegar na estacao foi demais. A tarde ja ia caindo e a estrada era ao longo de um rio coberto de infinitas palmeiras. E com mais uma hora de atraso do trem, deixei Goa rumo a Bombay.