11/Mar/08
Cansado após mais de vinte dias viajando pelo Subcontinente, finalmente cheguei no meu destino final: Varanasi. Conheci dois caras no trem, um japonês e outro coreano, que não me perguntem seus nomes. Perguntei se já tinham lugares pra ficar e responderam que não, mas eu tinha. O lance foi que em Agra, quando eu pedi pro gerente do hotel reservar as passagens de trem pra mim, ele fez um contato em Varanasi disponibilizando um motorista pra me pegar na estação de trem e me levar pro hotel do seu conhecido. Não havia nada de mais mesmo porque se o hotel não fosse bom eu o trocaria na hora. Levei os dois orientais junto e já rachamos o taxi que no fim eu paguei sozinho. Saimos do turbulento centro da cidade e chegamos as margens do sagrado Rio Ganges. Vale falar que eu nunca estive em uma favela de verdade, mas vendo o filme Cidade de Deus, Tropa de Elite ou qualquer documentário que mostram "becos", Varanasi não perde em nada, mesmo.
Varanasi entrou no meu roteiro mais por ser um nome conhecido do que por informações que eu tinha a seu respeito. Depois de duas horas na cidade e ter caminhado ao longo do rio, já não havia mais nada pra fazer. Pensei em antecipar a ida de volta pra Chennai mas ia ser muita mudança de plano, o que numa viagem que estava dando tudo certo até então, não custava esperar mais um pouco e ver o que aconteceria...
Se perder em Varanasi nos becos ao longo do rio fez parte da minha rotina nos meus dois dias na cidade. O mapa que eu tinha não era completo e o cartão do hotel era mais que suficiente pra (depois de pelo menos 10 informações) chegar nele. Num desses pedidos de informações encontrei um cara do Nepal. Foi estranho pois depois que ele me deu a informação ele começou a me seguir e querer conversar. Ele disse que queria conversar em inglês, pois na Índia e no Nepal não tinha essa oportunidade, visto que só falam entre eles a língua local. De acordo com o guia, e com o bom-senso, o negócio não era dar conversas pra esse tipo de gente, pois o que eles costumam fazer é pegar o turista, levar pra um beco e roubar até a última rúpia possível. Até vi que o cara não tinha muito estilo de ladrão e de repente queria mesmo só praticar inglês, mas eu que não tava lá pra testar os padrões de segurança, muito menos seguir exatamente o contrário que o guia dizia, deixei o cara falando sozinho e vazei...

...Vazei e caminhei ao longo do rio por 20 minutos até a última escadaria. O rio Ganges é sagrado pros hindus. É nele que eles tomam banho, rezam, praticam yoga (geralmente os turistas), pescam, lavam roupas no estilo "paulada na pedra" e queimam corpos. De acordo com a tradição, a maior glória pra um hindu quando morto é ser queimado às margens do rio. Então é normal presenciar famílias carregando parentes em direção ao rio.
Pra explicar melhor, as margens do rio há vários barcos repletos de lenha. E os tipos de madeira são dos mais diversos. Desde os menores e mais baratos , até os troncos de madeira nobre, para os mais ricos. E pra carregar toda essa lenha, o povo da casta mais baixa são os encarregados. Eles levam a madeira pra cima e pra baixo, e antes de queimá-las, pesam em balanças do tamanho de um carro.
O dia passou e descobri que a noite iria acontecer uma cerimônia em frente ao Ganges. Foi uma sorte, pois assim como em Agra, e completamente diferente de Goa, Bangalore e muitos picos que ficaram pra trás, lá também não tinha muita coisa pra fazer. Essa cerimônia aconteceu ao anoitecer e durou umas duas horas. Entre a banda tocando, as coreografias usando água do rio e fogo, o tempo passou rápido e logo voltei pro terraço do hotel pra conversar com a turma que tava na mesma situação.
Outro dia cedo tinha que acordar as 6 por causa do passeio organizado pelo próprio hotel que ia ter no rio. Confirmei quantas pessoas iam, e me mandei junto. Era cedo, frio, o dia amanhecendo, os barcos de turistas já lotando as margens e os mais nativos tomavam banho naquela água pra não dizer outra coisa, sagrada. O remador encostava em outros barcos e por incrível que pareça haviam barcos-lojas, ou seja, barcos cheios de bagulhos, roupas, lembranças, cartões postais... Inacreditável. Sem contar o episódio da menininha de 10 anos que chegou pulando de barco em barco. Ela estava lá com uma bandeja cheia de velas as 6:20 da manhã oferecendo pra todo mundo. As velas já estavam todas acesas, e a moral era fazer um pedido, falar um nome e colocar sobre a água. Naquela neblina a velinha até fazia um grau, o problema foi que ela tava pedindo 25 rúpias. E as 6 da manhã tirar um centavo de mim não ia ser fácil... aliás, não só de mim como de todos do barco. Ninguém falou nada por 10 segundos até que o japonês perguntou: "Ah, faz por 10 rúpias?". Cada um compro uma, inclusive eu, que com a trip chegando ao fim não pedi nada, só agradeci e mandei a vela pro rio. Que por mais sagrado que fosse eu não conseguia admitir que depois de trabalhar no Greenpeace e falando sobre poluição quase todo dia, eu tinha jogado uma vela em um rio!