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Terra Blog

28.04.08

Keep on Moving

28/Apr/2008





As vezes eu ainda me pergunto se tudo que aconteceu foi verdade. Dei meia volta no mundo pra chegar, morei 3 meses e em mais um atravessei o país de havaianas e trem, comi com a mão e tomei banho gelado. Trabalhei no Greenpeace e vi o Taj Mahal 7 horas e meia na frente do Brasil. Foram tantas coisas que depois de 127 dias na gringa só eu sei o que passei e vi. A viagem em si já estava na vontade há muito tempo, mas eu não tinha uma razão específica nem um destino. Mas eu tinha uns trocados e muita vontade. Foi aí que quando eu recebi aquele email abençoado da Aiesec através do email de graduação da UFSC no estilo : [informe] que eu fiquei conhecendo tudo isso.


Conheci a Aiesec em fevereiro e disparei em outubro. Foram oito meses planejando sem fazer muitas expectativas. Entre as madrugadas lendo, vi uma que me chamou atenção: que foi a do cara que planejou tanto tanto que acabou não viajando. Então só acreditei que a viagem aconteceria quando eu colocasse o pé dentro do avião. E assim foi feito.


Casei a minha ficha em agosto. Foi num sábado depois do almoço que eu sentei na frente do computador dizendo pra mim mesmo que eu ia encontrar o meu rumo. Uma vaga no Greenpeace não era novidade pra mim, eu já estava acompanhando várias vagas na "aiesec.net", hoje "myaiesec" que é o site aonde as transações entre estudante, organização e aiesec são feitas. Eu sabia os últimos intercâmbios abertos, as empresas fodas parceiras. Aprendi a mexer no sistema e procurar as melhores vagas, ou melhor, as vagas com o meu perfil.


Lembro que quando eu vi a vaga disponível até dei uma olhada que era na Índia, mas não me chamou atenção. Entao me apliquei pela segunda vez pra vaga e mais rápido que o não da primeira vez foi o sim dessa segunda. A Aparajita, a responsável pela vaga, respondeu no outro dia dizendo que eu era ideal pra vaga. Eu fiquei tão animado que nem vi que a vaga era na Índia, aliás lógico que eu vi, mas não dei a menor bola. E foi assim nos primeiros cinco minutos. No sexto minuto a ficha caiu e eu disse: CARA.......mba! eu vou pra Índia.


Até aí eu conhecia a Índia pela apostila do Colégio Murialdo lá da 3ª série nos anos 90 quando a tia falava das índias, do Cabral que se perdeu indo pra lá depois da tempestade, das especiarias (cravo, canela e pimenta), o Taj Mahal e o Ghandi. Mais tarde voltei a escutar um pouco mais nas aulas de administração sobre esta nova potência que está para surgir, da explosão dos softwares e de uma ou outra matéria da Exame. Mas sinceramente a Índia nunca me chamou a atenção, não tinha onda.





O lance da cirurgia que eu fiz antes do embarque tendo que atrasar em um mês a trip só veio pra me instigar. Parece que depois de 4 meses viajando, um mês de cama deu pra resumir nessa linha que foi escrita aqui em cima.


Morar na Índia ao contrário do que muitos pensam não foi difícil. Os ônibus lotados, o cheiro de merda dos rios, a poluição do ar, sonora e visual não são grandes obstáculos como disse meu amigo belga se referindo na diferença entre os trainees que reclamavam do lugar, e daqueles (nós) que encaravam a situação como um cenário aonde vivíamos e observávamos as coisas acontecendo. Era gente chegando e saindo a cada 15 dias mais ou menos. Ao mesmo tempo que gerações começavam, para outros elas terminavam e os velhos inquilinos eram lembrados volta e meia por estórias engraçadas e fotos penduradas na parede. Deixei uma minha lá na porta do armário: eu tava no Rosa Sul vendo as ondas e segurando a prancha que depois de mais algumas quedas rachou no meio. A bandeira do Brasil ficou pra posteridade também. As havaianas que cruzaram o país deixei de presente assim como a 9 do Ronaldo, que quando eu usava sabia que ia chamar atenção... Deixei junto a outras revistas algumas que eu tinha levado daqui e agora fazem parte de uma mini biblioteca com informação vinda do mundo todo deixada por todos que moraram lá. Foi legal ver reportagens e reportagens sobre a Índia em chinês, inglês, ucraniano, belga, da Sérvia, Rússia e em português com a minha "Viagem" que eu levei daqui junto com uma "Terra". Confesso que a reportagem feita pela primeira revista parecia pesquisa na internet. Tá certo que era uma revista dos anos 90 comprada num Sebo. Muitas informações completamente erradas e dicas furadas. O xerox do guia da minha tia que já tinha ido também da revista Viagem não serviu pra nada. Já a "Terra" eu gostei, até trouxe a revista de volta. Trouxe pois ela tinha uma reportagem completa falando sobre uma trip que eu fiz na primeira semana do ano. E quem leu o Blog sabe de qual eu estou falando. Mais pra frente vou pegar a revista, dar uma lida e lembrar...


E foi lendo os blogs antes de viajar que eu me motivei a escrever o meu. Era um jeito fácil de "comunicação geral" tanto pra familiares, pra galera da Aiesec e pros amigos que estivessem afim de acompanhar. Eu sentava na frente do computador na lanhouse e começava a lembrar o que tinha acontecido entre um post e outro. A prioridade era colocar o que eu tinha visto, situações engraçadas e que valeriam ser lembradas depois. Então eu chegava e começava a escrever e sem perceber eu passava duas horas na frente do computador. Não tinha tempo de ler o que eu acabara de escrever, uma desculpa pros erros de português percebidos mais além. Outra novidade foi escrever sem o uso de acentos e mesmo assim acho que consegui passar a mensagem.


Continuação

23.03.08

Últimos dias

23/Mar/08

"Estou cada vez mais fundo no coração da Índia. Misteriosos são os caminhos do mundo. Viver com a intensidade pretendida é o meu karma construído, dia-a-dia, emoção a emoção, num artesanato de horror e de bênção. Aprendi a desmontar lenta e precisamente a armadura interna que me escravizava a ideais que não me pertenciam. Identifica-los é o primeiro e grande passo. Livrar-se deles, com jeito e decisão, o segundo. A partir do momento que olhamos de frente e reconhecemos a face do demônio podemos lidar com ele. Só nós, sozinhos, podemos fazer isso. Não há para quem pedir ajuda, estamos constantemente sós, com a nossa alma, e podemos pinta-la da cor que quisermos, se soubermos como. Essa terra é o palco escolhido pelo meu espírito para aprofundar ainda mais a minha experiência. Surfar em terra. Mãe-Índia. Reconhecendo a escuridão como nossa, como parte de nós, tiramos sua fôrça por completo. Ela retoma a proporção da sua insignificância perante a Força maior do deus interno. Como delegar tal missão?" (fonte: http://waves.terra.com.br/novo/layout4.asp?id=16309&sessao=56). Se as palavras do Surfista Peregrino me motivaram ao longo dessa jornada de ida, elas merecem voltar ao blog pro caminho de volta...


Lembro que foi difícil conseguir um rickshaw do hotel em Varanasi até a estação de trem. Eles não paravam, estavam lotados, correndo. Era a hora do rush mas depois de um tempo consegui um. Eles eram brancos e sujos, velhos e quebrados. Pensei que todos os rickshaws velhos e recusados de toda a Índia viriam parar aqui. Aquela muvuca ia ficando pra trás e eu só queria meu lugar no trem de volta pra Agra, que ainda não estava confirmado.

                 




Mais um over-night 12 horas e cheguei novamente em Agra. Era cedo, umas 9 ou 10 horas e eu voltei pro mesmo hotel aonde já tinha ficado antes. Nem ia dormir lá, apenas passar o dia e na mesma noite pegar o trem de volta pra Chennai. Como já tinha dormido nesse hotel 2 noites, tinha reservado as passagens com o gerente e deixado a mochila maior (que quando eu fui pra Varanasi só levei uma pequena), voltei e o gerente me ofereceu um quarto pequeno pra passar o dia, esticar as pernas e arrumar a mala pra jornada de 41horas de volta... Isso, 41 horas de trem! Era sábado umas 10 da noite e eu ia chegar em Chennai segunda-feira as 3 da tarde. Er'a a única opção que eu tinha.



Assim que confirmei o trem, avisei alguns amigos a respeito da minha chegada, afinal não tinha mais chave do meu antigo apartamento e por mais que eu continuasse viajando, todos em Chennai estavam firmes em seus empregos e suas rotinas.


Antes da partida tinha feito uma refeição completa num restaurante em Agra. O restaurante não tinha visual pro Taj Mahal, mas a comida era boa, tinha televisão e o dono era gente fina. Ainda lá, notei algumas fotos na parede nas quais ele aparecia e perguntei da onde eram... Europa. Me respondeu rápido e já emendando que possuia amigos ao redor do mundo e passeava bastante quando era mais jovem. Por um momento eu pensei que os indianos que são donos de restaurantes viviam aquela vida simples ao redor do Taj servindo aos turistas e sem mais nada de muito interessante pra fazer... Engano meu, o cara conhecia muitos lugares e disse que ia pro Brasil com bastante convicção. Se acreditei não sei, mas não duvidei. Saí do restaurante com dois sanduiches arregados que me salvaram da fome na viagem que viria pela frente...


Então estava eu no trem, já no meu lugar pronto pra minha última viagem rumo a Chennai. Passados 22 dias de mochilão era hora de voltar pra casa e rever os amigos. Minutos antes do embarque pensei em todas as viagens que eu tinha feito até então. Apesar dos trens serem iguais e eu estar sempre viajando na classe Sleeper, as pessoas eram sempre diferentes mas as perguntas que me faziam eram mais ou menos as mesmas... "da onde você é", "qual seu nome", "o que você está fazendo", "gosta da India", e depois de cinco minutos conversando... "o que seu pai faz", "quantos irmãos você tem", "joga futebol"... e assim por diante. Eu não me importava de conversar pois querendo ou não eu era diferente no trem, e certamente eu procuraria informações com eles caso acontecesse algo de errado no meio do caminho. Mas nessa última viagem foi diferente. Ninguém conversou comigo, a não ser quase chegando em Chennai. Jantei, li e o tempo passou rápido. As primeiras vinte e quatro horas foram muito rápidas graças ao dramim que carregava entre vários outros remédios.


Numa das acordadas durante a noite pra ir ao banheiro encontrei o "Conductor", que por curiosidade perguntei a que horas o trem chegaria em seu destino final. E veio a surpresa, "amanhã cedo, umas 8" ele respondeu. Na hora não acreditei, já eram mais ou menos meia noite e então era só dormir denovo, acordar e chegar em casa... De 41 horas a viagem passou a ser de 35. Pensei em avisar a galera sobre a mudança nos planos, mas esperei pra fazer a surpresa, visto que antes das 9 ninguém saia de casa.


A sensação de voltar pra casa só é melhor que a de ir embora. Não estava voltando pro Brasil, ainda. Mas voltando pra Chennai, a minha casa nos últimos 3 meses. Rever todos os amigos de novo, dormir na minha cama, fazer umas festas, jantas, saber o que estava acontecendo com todos e conhecer a galera que tinha chegado nas últimas semanas.


Acordei as 6 e Chennai - depois de falar pra muitas pessoas ao longo do caminho que era uma cidade suja, não muito bonita, mas apesar de tudo eu gostava - me recepcionou com um nascer do sol irado. Bati várias fotos. Talvez as mais bonitas de Chennai. Tava indo tudo muito bem quando o trem parou. Parou e ficou 3 horas esperando as linhas serem descongestionadas. Nesse meio tempo já havia informado o Filip, o belga que morava em outro flat a respeito da minha chegada e ele que ia trabalhar só a tarde falou pra chega lá.

          



Após 24 dias de mochilão estava eu - numa de manhã segunda-feira - novamente em Chennai. Era engraçado pois eu conhecia a cidade, as principais avenidas, alguns prédios antigos... era como voltar pra casa, mesmo sabendo que no próximo sábado estaria embarcando pra casa de verdade: Floripa. Não pensei nisso, só pensei na semana inteira qu eu teria pela frente pra curtir meus últimos momentos na Índia com os amigos tanto da Aiesec como do Greenpeace.


A segunda-feira foi passando entre várias estórias da trip e fotos. O Filip não foi trabalhar e depois de ligar pro Rolf e avisar que já estava em Chennai, cheguei em Egmore umas 8 da noite. Foi legal rever os flatmates. Só não vi o Robert pois era época de deadline de um projeto então o bixo chegou as 3 da madrugada e no outro dia tinha partido antes das 9. O chinês era tenso no trabalho da Tata.


Na verdade durante a trip as coisas em Egmore vieram a ficar um pouco diferentes e prestes a mudar bastante: o Robert se mudou pra minha cama e dividiu o quarto com o Rolf. O Rolf decidiu sair do trabalho, fazer uma viagem pro norte da Índia com o Robert e depois ir sozinho pro Nepal em busca da renovação do visto. A Rhiannon (namorada do Javier) foi viajar também pro norte e não voltaria mais. Após a Índia ela ainda tinha um longo caminho pela Ásia e Europa antes de voltar pra Austrália. E o Javi, pra fechar a barca, ia viajar pro norte da Índia também, tinha decidido sair do emprego e fazer o mesmo. Ele ia com um amigo colombiano que morava em outra cidade e talvez encontrar a namorada. Sem contar a chinesa que veio pra passar dois meses, trabalhou uma semana e foi viajar outras 3. Ela tinha chego um dia depois de eu partir e foi embora horas antes de eu chegar. A única coisa que eu conheci dela foram as sacolas vazias e papeis rasgados deixados no quarto pra eu limpar.

Era época de mudanças, e pra mim a principal era a minha. Que estava deixando a Índia para trás...

10.03.08

Varanasi, a última parada.

              

11/Mar/08

Cansado após mais de vinte dias viajando pelo Subcontinente, finalmente cheguei no meu destino final: Varanasi. Conheci dois caras no trem, um japonês e outro coreano, que não me perguntem seus nomes. Perguntei se já tinham lugares pra ficar e responderam que não, mas eu tinha. O lance foi que em Agra, quando eu pedi pro gerente do hotel reservar as passagens de trem pra mim, ele fez um contato em Varanasi disponibilizando um motorista pra me pegar na estação de trem e me levar pro hotel do seu conhecido. Não havia nada de mais mesmo porque se o hotel não fosse bom eu o trocaria na hora. Levei os dois orientais junto e já rachamos o taxi que no fim eu paguei sozinho. Saimos do turbulento centro da cidade e chegamos as margens do sagrado Rio Ganges. Vale falar que eu nunca estive em uma favela de verdade, mas vendo o filme Cidade de Deus, Tropa de Elite ou qualquer documentário que mostram "becos", Varanasi não perde em nada, mesmo.


Varanasi entrou no meu roteiro mais por ser um nome conhecido do que por informações que eu tinha a seu respeito. Depois de duas horas na cidade e ter caminhado ao longo do rio, já não havia mais nada pra fazer. Pensei em antecipar a ida de volta pra Chennai mas ia ser muita mudança de plano, o que numa viagem que estava dando tudo certo até então, não custava esperar mais um pouco e ver o que aconteceria...
Se perder em Varanasi nos becos ao longo do rio fez parte da minha rotina nos meus dois dias na cidade. O mapa que eu tinha não era completo e o cartão do hotel era mais que suficiente pra (depois de pelo menos 10 informações) chegar nele. Num desses pedidos de informações encontrei um cara do Nepal. Foi estranho pois depois que ele me deu a informação ele começou a me seguir e querer conversar. Ele disse que queria conversar em inglês, pois na Índia e no Nepal não tinha essa oportunidade, visto que só falam entre eles a língua local. De acordo com o guia, e com o bom-senso, o negócio não era dar conversas pra esse tipo de gente, pois o que eles costumam fazer é pegar o turista, levar pra um beco e roubar até a última rúpia possível. Até vi que o cara não tinha muito estilo de ladrão e de repente queria mesmo só praticar inglês, mas eu que não tava lá pra testar os padrões de segurança, muito menos seguir exatamente o contrário que o guia dizia, deixei o cara falando sozinho e vazei...
 
                 



...Vazei e caminhei ao longo do rio por 20 minutos até a última escadaria. O rio Ganges é sagrado pros hindus. É nele que eles tomam banho, rezam, praticam yoga (geralmente os turistas), pescam, lavam roupas no estilo "paulada na pedra" e queimam corpos. De acordo com a tradição, a maior glória pra um hindu quando morto é ser queimado às margens do rio. Então é normal presenciar famílias carregando parentes em direção ao rio.
Pra explicar melhor, as margens do rio há vários barcos repletos de lenha. E os tipos de madeira são dos mais diversos. Desde os menores e mais baratos , até os troncos de madeira nobre, para os mais ricos. E pra carregar toda essa lenha, o povo da casta mais baixa são os encarregados. Eles levam a madeira pra cima e pra baixo, e antes de queimá-las, pesam em balanças do tamanho de um carro.


O dia passou e descobri que a noite iria acontecer uma cerimônia em frente ao Ganges. Foi uma sorte, pois assim como em Agra, e completamente diferente de Goa, Bangalore e muitos picos que ficaram pra trás, lá também não tinha muita coisa pra fazer. Essa cerimônia aconteceu ao anoitecer e durou umas duas horas. Entre a banda tocando, as coreografias usando água do rio e fogo, o tempo passou rápido e logo voltei pro terraço do hotel pra conversar com a turma que tava na mesma situação.


Outro dia cedo tinha que acordar as 6 por causa do passeio organizado pelo próprio hotel que ia ter no rio. Confirmei quantas pessoas iam, e me mandei junto. Era cedo, frio, o dia amanhecendo, os barcos de turistas já lotando as margens e os mais nativos tomavam banho naquela água pra não dizer outra coisa, sagrada. O remador encostava em outros barcos e por incrível que pareça haviam barcos-lojas, ou seja, barcos cheios de bagulhos, roupas, lembranças, cartões postais... Inacreditável. Sem contar o episódio da menininha de 10 anos que chegou pulando de barco em barco. Ela estava lá com uma bandeja cheia de velas as 6:20 da manhã oferecendo pra todo mundo. As velas já estavam todas acesas, e a moral era fazer um pedido, falar um nome e colocar sobre a água. Naquela neblina a velinha até fazia um grau, o problema foi que ela tava pedindo 25 rúpias. E as 6 da manhã tirar um centavo de mim não ia ser fácil... aliás, não só de mim como de todos do barco. Ninguém falou nada por 10 segundos até que o japonês perguntou: "Ah, faz por 10 rúpias?". Cada um compro uma, inclusive eu, que com a trip chegando ao fim não pedi nada, só agradeci e mandei a vela pro rio. Que por mais sagrado que fosse eu não conseguia admitir que depois de trabalhar no Greenpeace e falando sobre poluição quase todo dia, eu tinha jogado uma vela em um rio!

07.03.08

Taj Mahal e mais nada pra fazer

Mar/08


A noite de trem entre Mumbay e Agra foi a que eu mais passei frio durante todo meu tempo na Índia. Confesso que quando arrumei a mochila pra fazer essa viagem achei que ela estava pesada. Refiz e tirei varias coisas dentre elas uma blusa de lã, que fez falta. Até então o meu plano de viagem era ir até Mumbay (mais ou menos no meio do país na costa oeste) e depois voltar pra Chennai, pensando nisso não precisava levar roupas de frio.

Porém, lembro que quando me despedi dos amigos ainda em Chennai pra começar a mochilada, vi que se reprogramasse tudo novamente poderia ir ainda mais longe, ver o Taj Mahal, o sagrado Rio Ganges e o deserto do Rajestão de repente entraram no meu plano. E nessa hora eu já estava a caminho da estação de trem e nem lembrei de pegar o casaco de volta.


Passaram exatas 21 horas de viagem e cheguei em Agra, a cidade do Taj Mahal. Já era fim de tarde e o pôr-do-sol já estava irado. Tinha o dia seguinte inteiro pra ver o Taj, e a preocupação na hora era já comprar a passagem pro próximo destino: Varanasi. Fiquei naquela de correr pro hotel e ver o Taj de cima do terraço ou comprar a passagem pro destino seguinte. A estação movimentada como sempre, filas e a vontade de sair de lá fez com que eu deixasse toda essa parte de reservas e trens pro gerente do hotel, que sabendo que ia cobrar uma comissão, iria me entregar a passagem na mão sem eu ter que fazer nada.

Rachei um rickshaw com um cara de Israel que já estava na Índia pela segunda vez. Diz ele que já havia visto o Taj Mahal alguns anos atrás e dessa vez não ia pagar denovo. O programa dele era ficar num hotel em frente ao Taj e visitar as cidades ao redor. A verdade é que eu não entendi o porquê ele já não foi direto pras essas cidades se em Agra não tinha nada pra fazer...

Depois de meia hora e 50 pessoas oferecendo vagas em pousadas, me instalei em uma e já passei meu roteiro pro gerente que no outro dia me deu as passagens na mão. Era noite e não tinha nada pra fazer na cidade, que vale falar que não tem nada de mais e pelo que deu pra ver há dois tipos de estrangeiros que vão pra visitar o Taj Mahal. O primeiro tipo é o turista, ou seja, aquele senhor que desce do avião, entra no ônibus AC da agência de viagem, desembarca no hotel 5 estrelas, dorme, acorda, vai pro Taj de ônibus AC, visita o lugar em bando com guias explicando (e cobrando) cada centímetro do mausoléu. Chega a hora de ir embora, todos vão ao mesmo tempo pro hotel e de volta pro aeroporto, chegam de volta no seu país de origem e dizem: eu fui pra Índia. O segundo grupo é o do viajante: que chega de trem ou ônibus, desembarca na estação, pega um rickshaw e vai em busca da pousada. Pede informações sobre o lugar na rua e consulta os livros. Vai pro Taj a hora que quer sem horários pra voltar. Fica em hotéis baratos ao redor e além de ir pra principal atração que a cidade oferece, passa alguns dias curtindo o lugar.

A ida pro Taj como viajante acho que vale mais a pena. Fiquei dois dias de frente pro pico vendo coisas que as revistas não mostram. Antes disso imaginava que o lugar teria sido construído num descampado sem nada ao redor e que o desse pra ver de muito longe, sem muros, sem nada. Provavelmente há alguns 300 anos atrás isso poderia ter sido verdade. Mas hoje em dia o negócio é um pouco diferente. O Taj é cercado com muros altos, creio que desde o início foi assim. Mas se não bastassem os muros, o lugar é dominado por hotéis, restaurante e muitos, mas muitos (até achei que um trem de computadores tinha quebrado por lá) estabelecimentos pra conectar internet.

Os hotéis são baratos, são construídos basicamente em 3 ou 4 andares com restaurantes no terraço, o que proporciona uma boa visão dos macacos andando sobre os telhados, as vacas fazendo m... na rua, as crianças indo pras escolas, os motoristas de rickshaw oferecendo seus serviços a todos que passam, os pastores levando bandos de búfalos, ah e claro, do Taj.

"A obra do Taj Mahal foi feita entre 1630 e 1652 com a força de cerca de 22 mil homens, trazidos de várias cidades do Oriente, para trabalhar no sumptuoso monumento de mármore branco que o imperador Shah Jahan mandou construir em memória de sua esposa favorita, Aryumand Banu Begam, a quem chamava de Mumtaz Mahal ("A jóia do palácio"). Ela morreu após dar à luz o 14º filho, tendo o Taj Mahal sido construído sobre seu túmulo, junto ao rio Yamuna.

Assim, o Taj Mahal é também conhecido como a maior prova de amor do mundo, contendo inscrições retiradas do Corão. É incrustado com pedras semi-preciosas, tais como o lápis-lazúli entre outras. A sua cúpula é costurada com fios de ouro. O edifício é flanqueado por duas mesquitas e cercado por quatro minaretes.



Supõe-se que o imperador pretendia fazer para ele próprio uma réplica do Taj Mahal original na outra margem do rio, em mármore preto, mas acabou deposto antes do início das obras por um de seus filhos." (fonte: wikipedia.com)

Agra na verdade é uma cidade pra se ficar um dia. Não mais que isso. A cidade possui duas atrações principais. Uma é o Taj e a outra é um Forte, e se você for nas duas no mesmo dia você ganha 50 rúpias de desconto (ou R$ 2,50). Como eu já tinha que ficar no mínimo dois dias, deixei esse forte pro segundo e me mandei pro Taj cedo no outro dia, caso contrário ia me matar sem ter o que fazer... A verdade é que no fim sempre acaba encontrando várias pessoas na mesma situação e trocando várias idéias no terraço dos hotéis com o monumento de background.

Já com as passagens na mão a minha viagem já estava chegando praticamente ao seu fim. Depois de Agra, eu fui somente a Varanasi e voltei para Chennai. O lance é que me programei mal, e nem tinha pensado nisso. Mas os trens de Varanasi para Chennai só partem as segundas e as quartas. E eu queria ir na quinta. Sem opções de escolha e com medo de pegar uma daquelas companhias aéreas que além de cobrarem preços muito baixos, podem cancelar os vôos a qualquer hora sem dar previsão pro próximo... E o plano foi refeito. Agra - Varanasi - Agra (denovo) - Chennai. Pois de Agra havia trens diários com destino a Chennai.

25.02.08

De camarote em Bollywood

25/Feb/2008





Cheguei em Mumbay antes do que eu esperava. Era mais ou menos 6 da manha e fui acordado aos gritos do funcionario da companhia de trem avisando que esse era a ultima parada. Olhei ao redor ainda dormindo e o vagao ja estava quase vazio.  Arrumei a trouxa e sai. A ideia era reservar o ticket pra proxima viagem rumo ao norte. Porem o escritorio soh abriria as 8, tempo suficiente pra comer um omelete prepararo por um guri de 13 anos que ainda estava aprendendo a fazer. Depois de lavar a mao ainda umida de gordura, fui perguntar aonde era o escritorio de reserva. Nao tinha pressa afinal era cedo e o hoetl que estava no meu plano - e no meu guia - soh tinha check-out as 9. Entrei na fila dos estrangeiros que se resumia a um europeu com o filho no colo e eu em seguida. Vale falar que a estacao de Mumbay eh organizada. Entre a fila para estrangeiros ha tambem fila para pagar somente com cartoes. Que ao contrario da fila normal que ja fazia curva no predio, a fila do cartao tinha menos de 5 pessoas.



Esperei meia hora observando os policiais tentando organizar as filas e as 8 em ponto a porta foi aberta e me mandei pro caixa dos estrangeiros no segundo andar. Mas nao bastava apenas ser estrangeiro, tinha que ser turista e pagar a conta em moeda estrangeira. Eu com visto de estudando e recebendo em rupias nao tava incluido nesse esquema. Nao deu outra, corri de volta pro primeiro andar pra fila do cartao e depois de tres camaradas peguei meu ticket pra Agra, que partiria na noite do dia seguinte.


Depois de dez dias em Goa de frente pro mar e sem barulho de buzinas ia ser dificil me segurar em Mumbay, uma cidade gigante, por muito tempo. Resolvi que dois dias e uma noite ia ser o tempo ideal pra andar pela cidade.


Passei no hotel e fiz o check-in, conheci um cara da Holanda que tambem tava fazendo intercambio. Ele perguntou se eu tava sozinho e se podia ir pela cidade comigo. Eu que nao tava afim de carregar uma mala mas tambem nao queria julgar o mala antes falei que tava sem  plano e ia sair pela cidade, que se quisesse viesse junto. E pior que veio. Ele e a maquina fotografica.Ate a esquina do hotel o mane bateu umas 10 fotos. E a primeira parada foi no "Portao da India", um presente dos ingleses. Segundo as fotos que eu tinha visto antes o portao parecia ser grande e bonito.  A decepcao foi maior do que o portao parecia ser. Inundado de turistas e vendedores e tambem stands de empresas indianas, aquilo la parecia mais uma feira livre. Bati uma foto enquanto o Pascal, o holandes, umas vinte. Diz ele que Mumbay (antes Bombay) realmente parecia com a Europa. Eu que nunca estive la concordei e vazei. No caminho passei pela Universidade de Bombay , uma construcao britanica que me fez perguntar porque estava vazia, se aquilo era pra ser uma  universidade.  E depois de conferir no celular, conclui que era sabado e achei que fosse melhor olhar o calendario com mais frequencia.


Passamos pela Suprema Corte e entramos. De bermuda e camiseta entre advogados e juizes. As cameras ficaram na portaria sem antes o Pascal tentar tirar algumas fotos de dentro do predio e ser barrado pelo policial, e eu vazei pra nao arranjar confusao. Dois minutos depois a mala me chamando denovo. Ja passava das 3 da tarde e cheganos numa beira-mar, afinal Bombay eh uma ilha. A avenida ate lembra a de Floripa, a unica diferenca sao os predios que sao muito mais velhos e baixos, o resto eh parecido. Tanto as avenidas largas, o calcadao e o cheiro do mar. Nisso o holandes de 19 anos ja tinha batido um giga de foto e eu deixei ele pra tras pra ir tomar uma gelada. Tomei duas e voltei pro hotel de onibus.  Ai que eu lembrei que ele tinha o guia do norte da India, e como eu tava a caminho tinha que bater uns xerox... Peguei o guia dele, fiz as copias e disparei pra dormir, umas 8 da noite.


Depois de Bombay no comeco eu tinha 3 destinos: Jaipur (no Rajastao), Agra ( Taj  Mahal) e Varanasi (Rio Ganges). Mas refazendo as contas tive que deixar o Rajastao pra proxima, assim como as Ilhas Andamans e Nicobar, mas isso ja eh outra historia.


Acordei meia noite louco pra tomar agua. Sai na rua e uma boate que tinha na esquina ja estava fechando as portas. Tentei entrar  de havaianas, bermuda e camisa do avesso e nao fui permitido. Perguntei pro seguranca se ele podia me comprar uma garrafa e ele disse que sim, por 50. Sai rindo e mais uns 200 metros encontrei um botecao aonde comprei por 15. O bar era massa, ainda lotado. Deu vontade de sentar e ficar um pouco. Mas ao contrario de Bangalore, Bombay era cara e o chopp nao saia por menos de 70, enquanto em Bangalore era 35. Deixei quieto e vazei pro hotel.


No caminho me deparei com uma producao de Bollywood, e pra quem ta ligado nesse lance de filmes, sabe que a India eh o lugar no mundo que mais produz filmes. E em Bombay eh o lugar da India aonde mais filmes sao produzidos. No fim de semana vi duas producoes na rua. Parei pra ver uns 10 minutos e muito melhor do que a cena que estava sendo filmada, foi  fato real que eu presenciei na minha frente. Eu estava na esquina conversando com um cara do staff do filme que era responsavel assim que recebesse o sinal pelo radio a bloquear a rua pra nao deixar ninguem passar enquanto o filme estivesse sendo rodado. Se tivesse sido combinado nao teria dado certo. Enquanto ele me contava a moral do filme, uma moto veio em direcao a estrada e cruzou em direcao ao filme. Nessa hora ele recebeu o sinal para bloquear a rua e comecou a gritar pro motociclista parar a moto. Ele parou e foi fazer a volta (sem olhar pra tras, como todos os indianos fazem) e outra moto que nao tinha nada a ver com a historia veio e juntou a lateral da moto. Ninguem se machucou. Mas foi a melhor cena que eu vi em Bombay, ali de camarote.


No outro dia fiz o check-out cedo, larguei pra estacao ferroviaria pra trancar minha mochila e sair pela cidade denovo. Andando pela cidade, conclui que Bombay definitivamente era a cidade mais desenvolvida que eu ja tinha ido ate entao na India. Ruas limpas, transporte eficiente e arranha-ceus que diferente dos de Bangalore, aqui ja sao incontaveis. E dentro de mais alguns poucos anos dobrarao em numero. A construcao civil na India especialmente nas grandes cidades nao para nem nos domingos e feriados.


Nem dois dias e eu ja estava cansado da "cidade". Fui pra estacao de trem pegar o meu de 21 horas pra Agra, era apenas o esquento do que estava por vir.